Corte ou congelamento de benefícios pode aumentar pobreza em 2,7 milhões de pessoas

Corte ou congelamento de benefícios pode aumentar pobreza em 2,7 milhões de pessoas

Foto: Unicef

18 de Outubro de 2026

Por Martha Imenes

A manutenção da valorização real dos benefícios sociais e previdenciários tem impacto direto na renda de milhões de brasileiros e na atividade econômica de cidades do interior do país. É o que mostra um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), que estima que a ausência de ganhos reais em aposentadorias, no Bolsa Família e no Benefício de Prestação Continuada (BPC) entre 2022 e 2025 poderia ter levado cerca de 2,7 milhões de pessoas à pobreza.

Segundo as simulações, aproximadamente 2,4 milhões desse total passariam a viver em situação de extrema pobreza caso  ocorra corte ou congelamento em benefícios sociais. De acordo com o estudo, o impacto seria mais intenso em municípios localizados fora das regiões metropolitanas, onde os programas de transferência de renda e os benefícios previdenciários possuem peso significativo na economia local.

O levantamento aponta ainda que, em famílias de menor renda, aposentadorias, Bolsa Família e o Benefício de Prestaçāo Continuada (BPC), destinado a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, podem representar quase metade do orçamento doméstico. Além de contribuir para a redução da pobreza, esses recursos ajudam a sustentar o consumo, o comércio e os serviços em pequenas e médias cidades.

Para a economista Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP, o efeito desses pagamentos vai muito além do auxílio direto às famílias beneficiárias. "Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa", afirma.

Em números absolutos, os maiores impactos seriam registrados na Bahia, onde até 336 mil pessoas poderiam ingressar na condição de pobreza. Na sequência aparecem São Paulo, com até 263 mil novos pobres, e Minas Gerais, com até 251 mil pessoas.

Maranhão, Pará e Ceará também figuram entre os estados mais vulneráveis, cada um com potencial para registrar mais de 200 mil pessoas adicionais em situação de pobreza caso não houvesse reajustes reais dos benefícios.

Estados com maior aumento projetado da pobreza
 
Estado Pessoas que poderiam entrar na pobreza
Bahia Até 336 mil
São Paulo Até 263 mil
Minas Gerais Até 251 mil
Maranhão Mais de 200 mil
Pará Mais de 200 mil
Ceará Mais de 200 mil

Dependência é maior nas cidades do interior
 
O estudo destaca que cerca de 4 mil dos 5.569 municípios brasileiros estão fora das regiões metropolitanas. Nessas localidades, a participação das transferuições públicas na renda é consideravelmente superior à observada nos grandes centros urbanos.
 
No Ceará, por exemplo, benefícios sociais e previdenciários correspondem a aproximadamente 22% da renda agregada da capital e de sua região metropolitana. No interior do estado, essa participação chega a 40%, evidenciando a importância desses recursos para a economia regional.
 
Segundo os pesquisadores da USP, o padrão se repete em diversas áreas do Norte e do Nordeste, onde aposentadorias, BPC e programas de transferência de renda ajudam a sustentar o consumo das famílias e a atividade comercial dos municípios.
 
Interior do Nordeste teria as maiores perdas econômicas
 
A pesquisa comparou o cenário de valorização real dos benefícios observado entre 2022 e 2025 com situações em que os reajustes não ocorreram ou foram congelados. Os resultados indicam que a renda agregada dos municípios do interior ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do registrado com a política de valorização.
 
As maiores perdas ocorreriam no interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, onde a redução da renda poderia variar entre 17% e 18%.Amazonas, Sergipe e Pernambuco registrariam retrações próximas de 15%. Já Bahia, Maranhão, Ceará e Alagoas teriam perdas estimadas entre 10% e 13%.
 
Estados com maior retração de renda projetada no interior
 
Estado Queda estimada da renda
Rio Grande do Norte 17% a 18%
Amapá 17% a 18%
Piauí 17% a 18%
Amazonas Cerca de 15%
Sergipe Cerca de 15%
Pernambuco Cerca de 15%
Bahia 10% a 13%
Maranhão 10% a 13%
Ceará 10% a 13%
Alagoas 10% a 13%

Efeito no comércio e no emprego
 
Os pesquisadores alertam que os impactos não se restringem às famílias que recebem os benefícios. A redução da renda disponível tende a provocar queda no consumo, afetando empresas, postos de trabalho e a arrecadação municipal.
 
"Isso geraria uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público", avalia Luiza Nassif.
 
A economista ressalta que, para famílias com renda de até 1,5 salário mínimo per capita, os benefícios podem representar até metade dos rendimentos mensais. Na avaliação dela, interromper a política de valorização dessas transferências teria consequências significativas para milhares de municípios brasileiros.
 
"Olhando para o impacto que a queda de renda provoca, fica nítido o estrago que uma trava no crescimento dos benefícios pode fazer nas economias locais. Manter a valorização real da Previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo", afirma.

 
Brasil está fora do Mapa da Fome da ONU, mas especialistas
alertam para a importância dos benefícios sociais

 

O Brasil permanece fora do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), segundo o relatório"O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026" (SOFI), divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Os dados, referentes ao triênio 2023-2025, mostram avanços significativos no combate à fome e à insegurança alimentar no país.

De acordo com o relatório, o país manteve abaixo de 2,5% a proporção da população sem acesso à quantidade mínima de calorias necessária para uma vida saudável, indicador utilizado pela FAO para definir quais países integram o Mapa da Fome. Além disso, a insegurança alimentar severa caiu para 0,6% da população, o menor índice da série histórica monitorada pelo organismo internacional. Cerca de 16,7 milhões de pessoas deixaram essa condição no período analisado. 

Os números reforçam a melhora observada nos últimos anos, mas especialistas alertam que os avanços estão diretamente ligados à manutenção de políticas públicas de proteção social, especialmente programas de transferência de renda, valorização do salário mínimo, aposentadorias e benefícios assistenciais destinados às famílias de baixa renda.

Benefícios sociais ajudam a evitar retorno da fome

Embora o relatório da FAO destaque a melhora nos indicadores alimentares e econômicos, pesquisadores e entidades da área social avaliam que a continuidade desse resultado depende da preservação das políticas de transferência de renda e da valorização real dos benefícios pagos pelo governo federal.

Programas como o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e os benefícios previdenciários funcionam como uma rede de proteção para milhões de famílias que vivem próximas ou abaixo da linha da pobreza. Em muitos municípios brasileiros, especialmente no interior, esses recursos representam parcela importante da renda familiar e movimentam a economia local.

A avaliação é compartilhada por especialistas em segurança alimentar, que defendem a manutenção do poder de compra das famílias mais vulneráveis como condição indispensável para evitar o agravamento da pobreza e da fome.

A própria estrutura do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), citada pela FAO, reúne ações de proteção social, transferência de renda, acesso ao crédito para agricultura familiar e compras públicas de alimentos. O organismo internacional aponta essas iniciativas como parte da estratégia brasileira para ampliar o acesso à alimentação.

Menos brasileiros sem acesso a uma alimentação saudável

Outro indicador que apresentou melhora foi o acesso econômico à alimentação adequada. Segundo a FAO, a proporção de brasileiros que não conseguem pagar por uma dieta saudável caiu para 21,1% da população no triênio encerrado em 2025. O custo diário de uma alimentação saudável no Brasil foi estimado em US$ PPC 4,89 por pessoa, valor inferior à média da América do Sul e da América Latina e Caribe. 

Ainda assim, os dados mostram que aproximadamente 44,8 milhões de brasileiros permanecem com dificuldades para arcar com uma alimentação adequada, o que evidencia a importância da manutenção das políticas públicas voltadas à população de baixa renda. 

Economia mais forte ajudou a melhorar indicadores sociais

O relatório também relaciona os avanços da segurança alimentar ao desempenho da economia brasileira nos últimos anos. Entre 2023 e 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) registrou crescimento contínuo, enquanto o desemprego recuou para 5,6% em 2025. No mesmo período, o rendimento médio domiciliar per capita alcançou R$ 2.264, o maior valor da série histórica do IBGE.

Outro fator considerado fundamental foi o controle da inflação dos alimentos. O IPCA de Alimentação fechou 2025 em 2,95%, contribuindo para ampliar o poder de compra das famílias e reduzir a pressão sobre os orçamentos domésticos. 

Avanço ainda exige vigilância

Apesar dos resultados positivos, especialistas ressaltam que deixar o Mapa da Fome não significa que o problema foi completamente superado. Mais de 1 milhão de brasileiros ainda vivem em situação de insegurança alimentar severa, enquanto milhões de pessoas continuam encontrando dificuldades para manter uma alimentação saudável ao longo do mês.

Nesse contexto, a manutenção e a valorização real dos benefícios sociais e previdenciários são consideradas instrumentos decisivos para evitar retrocessos. Para famílias em situação de vulnerabilidade, esses recursos não apenas complementam a renda, mas garantem condições mínimas de sobrevivência, acesso à alimentação, medicamentos e outros itens essenciais.

A experiência brasileira mostra que a combinação entre crescimento econômico, geração de emprego, controle da inflação e fortalecimento das políticas de transferência de renda continua sendo um dos principais caminhos para reduzir a pobreza e impedir o retorno da fome em larga escala.

Fontes: Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/FEA-USP); pesquisadores da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), Relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 (SOFI), FAO/ONU; Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social e Agência Brasil

 

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