Foto: Rafael Nascimento/MS
28 de Setembro de 2026
Por Martha Imenes
Circulam nas redes sociais publicações atribuindo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a declaração de que o Flamengo “vai quebrar” com o fim das bets. A informação é falsa. Durante comício realizado no Recife, Lula não afirmou que o clube carioca, nem qualquer outra equipe, iria à falência. O que ele fez foi criticar a dependência financeira dos clubes de futebol em relação às casas de apostas esportivas e defender o fim da atividade no país.
Ao comentar os contratos de patrocínio firmados por equipes da Série A com empresas do setor, o presidente argumentou que os clubes não deveriam depender do dinheiro proveniente das apostas para manter suas atividades. Na fala, Lula citou os valores recebidos por Flamengo e Corinthians e afirmou que as equipes precisariam buscar outras formas de receita caso as bets deixem de operar.
“Os clubes de futebol não têm o direito de querer sobreviver às custas do povo pobre que torce para o time. (...) O Flamengo recebe R$ 240 milhões. O Corinthians, R$ 150 milhões. Vão ter que arranjar outra forma de ganhar dinheiro, porque a bet vai acabar”, declarou.
Em nenhum momento o presidente afirmou que o Flamengo “vai quebrar”, como sugerem publicações compartilhadas nas redes sociais. A declaração foi retirada de contexto para dar a entender que Lula previa o colapso financeiro do clube.
No discurso, Lula também questionou a influência crescente das casas de apostas sobre o futebol brasileiro. Segundo ele, a dependência dos clubes dos recursos das bets acaba estimulando um modelo de negócio sustentado pelo dinheiro perdido por torcedores e apostadores.
“Ou a gente acaba com isso, ou isso vai acabar com o Brasil”, afirmou o presidente, ao defender medidas de combate ao vício em jogos e aos impactos sociais provocados pelas apostas online.
A fala acontece após a reação de clubes de futebol à Medida Provisória que determina o encerramento das atividades das empresas de apostas de quota fixa no país. Recentemente, 15 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro assinaram um manifesto alegando que a proibição das bets poderia provocar forte impacto econômico no setor.
Governo vai discutir impactos com os clubes
Diante da preocupação manifestada pelas equipes, o Palácio do Planalto pretende se reunir com dirigentes de clubes netsa terça-feira (29) para avaliar os impactos da medida. A proposta inicial é ouvir representantes do futebol e elaborar um diagnóstico sobre possíveis prejuízos decorrentes do fim dos contratos de patrocínio ligados às casas de apostas.
A Medida Provisória editada pelo governo proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de cota fixa, abrangendo tanto apostas esportivas quanto jogos online. As empresas terão prazos determinados para encerrar operações, retirar publicidade e devolver recursos mantidos em contas de apostadores.
Endividamento cresce com avanço das bets
A defesa do fim das apostas online pelo governo tem como principal argumento os impactos sociais e financeiros causados pela atividade. Pesquisas recentes apontam uma relação cada vez mais forte entre apostas e endividamento das famílias brasileiras.
Levantamento do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises do Rio de Janeiro (IFec-RJ) mostrou que 5,1% dos apostadores afirmaram ter se endividado diretamente por causa das apostas online, enquanto 42,9% disseram possuir dívidas e 45,9% desses inadimplentes relataram estar com pagamentos atrasados. A pesquisa também apontou que 42% dos apostadores voltaram a jogar após perdas financeiras na tentativa de recuperar o dinheiro perdido.
Outro estudo apontou que 24 milhões de brasileiros apostaram em plataformas de bets em 2024 e quase metade deles se endividou em decorrência da prática.
Já uma pesquisa nacional do DataSenado revelou que 42% dos brasileiros que declararam apostar estavam endividados, sendo a maior incidência registrada entre pessoas de menor renda.
Além dos problemas financeiros, o Ministério da Saúde afirma que o transtorno relacionado ao jogo está associado a ansiedade, depressão, perda de controle, conflitos familiares, isolamento social e aumento do risco de suicídio.
Dados divulgados pelo governo indicam que mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores ao levantamento oficial, dos quais 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático.