Enxurrada de fake news marcou a reta final das eleições de 2026
05 de Outubro de 2026
A reta final das eleições de 2026 foi marcada por uma intensa circulação de informações falsas nas redes sociais e aplicativos de mensagens, reacendendo o debate sobre os limites da propaganda eleitoral e os riscos provocados pela desinformação no processo democrático. Ao longo da campanha, conteúdos sem comprovação, vídeos manipulados, montagens e mensagens enganosas sobre candidatos, partidos e o sistema eleitoral se espalharam rapidamente em diferentes plataformas digitais. Daí a importância de buscar fontes oficiais, consultar veículos jornalísticos reconhecidos e desconfiar de mensagens que contenham acusações sem provas, linguagem alarmista ou pedidos de compartilhamento urgente.
De acordo com especialistas em direito eleitoral, a produção deliberada de conteúdos falsos para prejudicar candidatos ou confundir eleitores pode gerar responsabilização judicial. Dependendo do caso, os envolvidos podem responder por crimes contra a honra, falsidade ideológica, divulgação de fatos sabidamente inverídicos e outras infrações previstas na legislação brasileira.
Outro ponto de preocupação em 2026 foi o uso crescente de ferramentas de inteligência artificial para a criação de imagens, áudios e vídeos manipulados, conhecidos como "deepfakes". A tecnologia permite reproduzir com elevado grau de realismo falas e comportamentos que nunca ocorreram, aumentando os desafios para a identificação de conteúdos fraudulentos. Um exemplo foi o safari na África que o candidato Flávio Bolsonaro participou. Por meio de IA foi montada uma imagem do candidato com um elefante abatido. É falso. Nāo houve caçada.
Confira alguns desmentidos da Agência Lupa
Publicações no Facebook e áudios no WhatsApp alegam que eleitores do presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), votam em dias diferentes dos apoiadores do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Os posts dizem que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu alterar as datas por conta da possibilidade de violência política nos locais de votação. É falso. As eleições de 2026 ocorreram neste domingo (4) para todos os aptos a votar, sem distinção por preferência ideológica.
Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação:
“Alteração de última hora do TSE. O TSE alterou as eleições nas vésperas das votações. Evitando um provável conflito. Ficando estabelecido a seguinte forma: Quem for votar no Lula PT (13) irá votar no próximo domingo dia 11/10. Ou seja quem vai votar no Lula nao precisa ir neste domingoão aguenta mais esses traidores. O Brasil quer prisão dos responsáveis da fraude quem for votar no Flávio Bolsonaro PL (22) vota neste domingo dia 04/10“
– Legenda de publicação no Facebook
O TSE não alterou a data das eleições por preferência política. O Tribunal, inclusive, publicou uma nota afirmando que “o primeiro turno das Eleições 2026 acontece em 4 de outubro para todo o eleitorado, independentemente da escolha de voto”.
“O calendário das Eleições 2026 estabelece uma data única para o primeiro turno: 4 de outubro. Não existe votação em domingos diferentes para apoiadores de candidaturas adversárias. Todas as eleitoras e eleitores devem comparecer às urnas no mesmo dia. Não haverá votação em 11 de outubro, domingo seguinte ao primeiro turno. A próxima data prevista no calendário é 25 de outubro, exclusivamente para as disputas em que houver segundo turno”, escreve a Justiça Eleitoral.
A alegação viral circula com diversas versões. No WhatsApp, um homem não identificado afirma de forma errônea que, “para evitar constrangimentos entre PT e PL”, “o TSE mudou as eleições” e só precisa votar quem é eleitor de Flávio Bolsonaro, “quem vota no Lula vai ser no outro domingo, dia 11”.
Outra versão orienta voto a bolsonaristas no dia 5
Uma outra versão da mensagem desinformativa diz que o Tribunal alterou a data dos eleitores de Flávio, que deverão ir às urnas na próxima segunda, dia 5 de outubro. Também é falso. Em todo o Brasil, as seções eleitorais funcionaram das 8h às 17h, pelo horário de Brasília.
Em nota à Lupa, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) informou que o arquivo de áudio contendo desinformação eleitoral vem sendo reiteradamente compartilhado por meio do WhatsApp, que a informação é manifestamente falsa e não haverá votação na segunda-feira (5), para qualquer grupo de eleitores.
Nas regiões com fuso horário diferente, o eleitorado deve observar o horário local correspondente.
Acre: das 6h às 15h;
11 municípios do Amazonas: das 6h às 15h (Amaturá, Atalaia do Norte, Benjamin Constant, Eirunepé, Envira, Guajará, Ipixuna, Itamarati, Jutaí, Tabatinga e São Paulo de Olivença);
Demais municípios do Amazonas: das 7h às 16h;
Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Roraima: das 7h às 16h;
Fernando de Noronha (PE): das 9h às 18h;
Demais localidades do país: das 8h às 17h.
Os resultados começarão a ser divulgados a partir das 17h, pelo horário de Brasília. O segundo turno, se houver, ocorrerá em 25 de outubro, também das 8h às 17h, e também sem divisão do eleitorado por preferência política.
Foto de Flávio Bolsonaro com elefante abatido foi gerada por IA
Uma imagem que circula no X mostra uma suposta reportagem sobre um safári protagonizado pelo candidato a presidente da República, Flávio Bolsonaro (PL), na África do Sul. O post mostra uma fotografia do político com um rifle em mãos e um elefante abatido. É falso.
“O SAFÁRI DOS INVESTIGADOS A viagem de FLávio Bolsonaro para a África do Sul teve direito a grupo de WhatsApp com personagens do escândalo do INSS e empresário alvo da CPI da Covid PEDRO TAVARES E BRENO PIRES, DE BRASÍLIA 19 set 2026 Na foto, o senador Flávio Bolsonaro (à direita) com uma espingarda, ao lado do elefante abatido. No fundo, da esquerda para a direita, o advogado Willer Tomaz, o empresário Carlos Alberto de Sá e o senador Weverton – Crédito: Reprodução”
– Texto em vídeo que, até 10h54 do dia 4 de outubro de 2026, havia registrado 570 compartilhamentos no X.
FALSO
A Revista Piauí publicou, em 19 de setembro de 2026, a reportagem “O Safári dos Investigados”, sobre uma viagem de Flávio Bolsonaro à África do Sul com o advogado Willer Tomaz, o empresário Carlos Alberto de Sá e o senador Weverton Rocha (PDT-MA). Porém, a fotografia e a legenda do post do X são falsas.
A foto enganosa foi criada com inteligência artificial (IA). Uma análise feita com o SynthID Detector aponta que parte do conteúdo foi gerada ou editada com tecnologia de IA do Google, como mostra a área destacada em azul abaixo.
Análise do SynthID Detector indica que o conteúdo foi criado com IA do Google. Imagem: Reprodução
Abaixo, confira uma captura de tela da reportagem original publicada pela Piauí. O texto não informa se o grupo abateu elefantes. A foto original foi registrada em março de 2025 e estava em um grupo de WhatsApp chamado “África do Sul”, composto por Flávio, Willer, Weverton e suas respectivas esposas.
Captura de tela da reportagem “O safári dos investigados”, da Revista Piauí. Imagem: Reprodução
“Junto dessa imagem, havia dezenas de outras mostrando elefantes e diferentes animais da savana, fotografados em um safári de que o grupo participou. A Polícia Federal teve acesso a esse material depois de apreender o celular de Weverton no final do ano passado, em uma fase da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes no INSS”, diz a reportagem da Piauí.
Weverton e Willer são investigados no escândalo do INSS. Ambos são suspeitos de terem se beneficiado de um esquema que lesou aposentados.
Além disso, a Polícia Federal investiga se Willer utilizou sites de apostas para lavar dinheiro. Conforme reportagem publicada pelo g1 em 29 de setembro, o advogado teria apostado R$ 6,6 bilhões em 18 meses.
Ministro do STF nāo usou celular na cabine
Circulam no Facebook e no Instagram posts afirmando que Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), utilizou o aparelho celular durante votação na cabine eleitoral. ❌ A informação é FALSA.
O ministro Gilmar Mendes não utilizou um celular na cabine de votação. O objeto que aparece nas imagens é uma carteira funcional que continha a chamada “colinha eleitoral”. A Justiça Eleitoral permite que o eleitor leve esse tipo de anotação para consultar os números durante a votação.
Renan Santos nāo declarou apoio a Lula no segundo turno
Uma imagem que circula no X mostra um título de uma reportagem alegando que o candidato a presidente da República, Renan Santos (Missão), teria dito que votará em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno. É falso.
Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação:
“URGENTE: Renan candidato do Missão diz que votará em Lula se houver segundo turno”
– Texto em vídeo que, circula no X.
FALSO
Renan Santos não declarou que votará em Lula em um eventual segundo turno. Uma busca reversa pela imagem mostra que que o título de uma matéria foi modificado para criar o conteúdo enganoso. No original, o título é “Renan descarta apoio: “Se fosse pra votar num bandido, votava no Lula””.
A declaração foi feita em 27 de setembro, em Salvador, quando Renan foi questionado sobre quem apoiaria no segundo turno. Ele disse que não pretende apoiar Flávio Bolsonaro (PL) e nem o atual presidente.
“Porque assim, se fosse pra votar num bandido, eu já tava votando no Lula antes e eu não teria montado o meu próprio partido”, disse o candidato.
Uma busca em veículos de imprensa não revelou nenhuma notícia informando que Renan tenha declarado apoio a Lula em um eventual segundo turno, o que é mais indício de que o fato foi inventado.
Esse conteúdo também foi checado por UOL Confere, Reuters e Boatos.Org, segundo a Lupa.
Vídeo não mostra carro de Janja atacado com ovos
Um vídeo que circula no Facebook mostra pessoas jogando ovos em um veículo preto. A legenda alega que no carro estava a primeira-dama Janja da Silva e que o ato ocorreu em 27 de setembro, em Brasília, enquanto a multidão gritava “Lula ladrão”. É falso.
“Coitada! Carro de Janja é alvo de ataque com ovos em Brasília aos gritos de “Lula ladrão” O carro dirigido pela primeira-dama Janja da Silva foi atingido por ovos no domingo (27), em Brasília, enquanto passava por uma região próxima a um ato político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O episódio foi registrado em vídeo pela equipe da TMC, e Janja confirmou à reportagem que o veículo havia sido atingido. Durante a passagem do automóvel, as imagens mostram ovos sendo arremessados contra o veículo. Em meio à movimentação, uma mulher em um prédio foi ouvida gritando “Lula ladrão”. As cenas ganharam repercussão nas redes sociais em meio ao período de campanha eleitoral. Até a publicação das informações, não havia confirmação sobre a identidade das pessoas responsáveis pelos arremessos. Também não há evidência de que a mulher que aparece gritando no vídeo tenha sido responsável por jogar os ovos contra o carro”
– Texto em vídeo que, até 13h38 do dia 4 de outubro de 2026, havia sido registrado 1,8 mil compartilhamentos no Facebook.
FALSO
Uma busca reversa identificou uma publicação do vídeo feita em 24 de julho deste ano pelo canal de televisão Al Arabiya English no Facebook. As cenas foram registradas em Tirana, capital da Albânia, e mostram manifestantes protestando contra um projeto de resort de luxo multimilionário proposto por Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.