10 de Outubro de 2026
Uma organização criminosa acusada de criar idosos fictícios para obter benefícios assistenciais do INSS desviou mais de R$ 86 milhões dos cofres públicos ao longo de mais de duas décadas, segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) à Justiça Federal.
Ao todo, 35 pessoas foram denunciadas por participação no esquema, que tinha como principal estratégia a criação de identidades inexistentes para receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC/Loas), destinado a idosos de baixa renda e pessoas com deficiência.
De acordo com as investigações, o golpe começava com registros tardios de nascimento de pessoas que nunca existiram. Com a emissão das certidões, o grupo conseguia obter documentos oficiais verdadeiros, como CPF e carteira de identidade, em nome dos supostos beneficiários.
A etapa seguinte era solicitar o benefício junto ao INSS. Para superar os sistemas de identificação presencial e biométrica, os criminosos utilizavam os chamados “dublês biométricos” , pessoas reais que cediam rosto e impressões digitais para representar diferentes identidades fictícias.
Segundo o MPF, uma mesma pessoa chegou a ser vinculada a diversos beneficiários inexistentes.
Mais de 170 laudos periciais da Polícia Federal identificaram a repetição de impressões digitais associadas a diferentes cadastros previdenciários, confirmando o método utilizado pela organização.
O trabalho conjunto do MPF, da Polícia Federal, da Força-Tarefa Previdenciária e do Núcleo de Inteligência Previdenciária de Minas Gerais identificou 457 benefícios considerados fraudulentos.
Desse total, 240 ainda estavam ativos e vinham sendo sacados regularmente até agosto, quando foi deflagrada a Operação Leste do Espinhaço, considerada pelo INSS a maior ação de combate a fraudes realizada pela autarquia em 2026.
Com a suspensão dos pagamentos, os investigadores estimam ter evitado um prejuízo adicional de R$ 34,8 milhões.
Segundo a denúncia, o grupo atuava de forma estruturada e com funções bem definidas.
Os investigadores identificaram quatro núcleos principais:
Além disso, integrantes da organização forneciam endereços, números de telefone e assinavam procurações para viabilizar a manutenção dos pagamentos.
A denúncia foi recebida pela 1ª Vara Federal Criminal de Governador Valadares.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, o juiz Leonardo Araújo de Miranda Fernandes manteve a prisão preventiva de 19 acusados. Na decisão, o magistrado considerou que ainda existe risco de continuidade das atividades criminosas.
Outros três réus cumprem medidas cautelares, enquanto três denunciados ainda não foram localizados.
A apuração teve origem em materiais apreendidos durante a Operação Fementido, realizada em julho de 2022 no Vale do Aço, em Minas Gerais.
A partir da análise dos documentos e do cruzamento de dados previdenciários, os investigadores identificaram centenas de benefícios pagos em nome de pessoas inexistentes.
Em nota, o INSS afirmou que vem reforçando os mecanismos de segurança para impedir fraudes na concessão de benefícios.
Entre as medidas adotadas está a ampliação da exigência de validação biométrica por meio da Carteira de Identidade Nacional (CIN), da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ou do título de eleitor, além do cruzamento automático de informações com bases da Receita Federal e outros órgãos governamentais.
A autarquia também destacou a cooperação permanente com órgãos de investigação para identificar e desarticular organizações criminosas que atuam contra o sistema previdenciário.
O caso ocorre em um momento de aumento das tentativas de fraude envolvendo identificação biométrica no país.
Dados da empresa CertiFace apontam que mais de 3,6 milhões de rostos cadastrados em sistemas de verificação apresentam algum tipo de restrição associada a tentativas de golpe. Segundo o levantamento, o número cresceu 20% em poucos meses.
Especialistas afirmam que, à medida que bancos e instituições públicas ampliam o uso da biometria, criminosos têm buscado técnicas cada vez mais sofisticadas para tentar driblar os mecanismos de autenticação digital.