Número de superendividados cresce 75% em cinco anos e já atinge 20,3 milhões de brasileiros

Número de superendividados cresce 75% em cinco anos e já atinge 20,3 milhões de brasileiros

Foto: Shutterstock

28 de Outubro de 2026

Por Martha Imenes

O número de brasileiros em situação de endividamento de risco chegou a 20,3 milhões de pessoas em junho de 2026, um crescimento de 75% em relação a junho de 2021, segundo dados do Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central. O grupo representa 17% de todos os devedores do Sistema Financeiro Nacional (SFN).

O avanço do superendividamento acendeu um alerta no sistema financeiro e levou o Banco Central a anunciar novas iniciativas para proteger consumidores mais vulneráveis.

Segundo o presidente do BC, Gabriel Galípolo, a autoridade monetária prepara um novo pacote de medidas para reduzir o risco de endividamento excessivo e limitar ofertas de crédito direcionadas a quem já enfrenta dificuldades financeiras.

“Pretendemos adicionar medidas ainda este ano”, afirmou Gabriel Galípolo. 

O presidente do Banco Central explicou que as próximas ações devem focar principalmente nos consumidores que já utilizam linhas de crédito mais caras ou acumulam atrasos relevantes nos pagamentos.

“Há uma preocupação ali especificamente com as pessoas que já entraram no rotativo e que estão pagando juros no cartão e pessoas que já estão com nível de atraso significativo”, disse Gabriel Galípolo. 

O BC também demonstra preocupação com o crescimento de modalidades sem garantia, como cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais não consignados.

“A preocupação que existe é nessas modalidades, em que estamos assistindo crescimento de maneira pouco sensível a preço”, afirmou o presidente da instituição. 

Famílias de baixa renda são as mais afetadas

O relatório mostra que o comprometimento da renda com dívidas é mais elevado entre os brasileiros de menor poder aquisitivo. Entre os trabalhadores que recebem até dois salários mínimos, o comprometimento médio da renda alcançou 42%, sendo 15% apenas com despesas relacionadas ao cartão de crédito.

Já entre os que recebem mais de dez salários mínimos, o percentual comprometido com dívidas ficou em 18,6%. 

Quem é considerado superendividado

Para enquadrar uma pessoa na categoria de endividamento de risco, o Banco Central considera quatro critérios. O consumidor precisa atender a pelo menos dois deles:

  • atraso superior a 90 dias no pagamento de operações de crédito;
  • comprometimento de mais de 50% da renda mensal com dívidas;
  • uso simultâneo de cheque especial, crédito pessoal sem consignação e crédito rotativo;
  • renda restante abaixo da linha de pobreza após o pagamento das dívidas.
  • A classificação não significa necessariamente inadimplência, mas indica elevada vulnerabilidade financeira e maior risco de deterioração das condições econômicas da família.

Governo prepara pacote contra o superendividamento

Enquanto o Banco Central endurece as regras para a oferta de crédito, o governo federal também trabalha em medidas voltadas à renegociação de dívidas e à prevenção do superendividamento.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo estuda ações voltadas especialmente para famílias de baixa renda, trabalhadores informais e pequenos empreendedores.

“Para que a gente consiga reperfilar, renegociar a dívida e oferecer uma condição melhor para essas pessoas”, afirmou Dario Durigan ao comentar as propostas em elaboração. 

O ministro destacou ainda que a preocupação não é apenas renegociar débitos, mas evitar que os consumidores retornem rapidamente ao ciclo de endividamento.

“É importante que o pacote crie mecanismos para evitar um posterior endividamento dessas pessoas”, disse Dario Durigan. 

Como sair do endividamento

Especialistas em finanças pessoais recomendam algumas medidas para quem já enfrenta dificuldades para honrar compromissos financeiros:

  • levantar todas as dívidas e identificar os juros cobrados;
  • priorizar a quitação de débitos mais caros, como cartão de crédito e cheque especial;
  • negociar descontos diretamente com bancos e credores;
  • evitar contratar novos empréstimos para pagar despesas correntes;
  • reorganizar o orçamento e eliminar gastos não essenciais;
  • utilizar programas oficiais de renegociação quando disponíveis.
Como participar do Desenrola

O programa Desenrola Brasil tornou-se uma das principais ferramentas de renegociação de dívidas da União. Nas fases anteriores, consumidores puderam negociar débitos com descontos expressivos oferecidos pelos credores. 

Para participar das próximas etapas disponibilizadas pelo governo, o consumidor deve:

  • possuir cadastro ativo na plataforma Gov.br;
  • acessar o portal oficial do programa quando houver abertura de nova rodada de negociação;
  • consultar as dívidas habilitadas para renegociação;
  • escolher a proposta oferecida pelo credor;
  • concluir eletronicamente o acordo de pagamento.
Novas regras para proteger consumidores

Na semana passada, o Banco Central anunciou novas regras para restringir ofertas inadequadas de crédito e ampliar a proteção ao consumidor. As instituições financeiras passarão a oferecer ferramentas para bloqueio de publicidade e propostas de empréstimos. Para clientes identificados como vulneráveis ou com risco de superendividamento, as ofertas dependerão de autorização prévia e explícita.

As medidas também preveem a criação de painéis digitais para consolidar informações sobre dívidas e novas restrições para ofertas de crédito durante operações realizadas via Pix.

A expectativa do Banco Central é que as novas regras reduzam a contratação de crédito de forma impulsiva e ajudem a conter o crescimento do superendividamento entre as famílias brasileiras.

 

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