21 de Setembro de 2026
Um vídeo coloca novamente os chamados “Golden Boys” no centro do escândalo dos descontos do Instituto Nsacional do Seguro Social (INSS). Nas imagens, Igor Dias Delecrode e Anderson Cordeiro Vasconcelos conversam sobre os milhões movimentados por associações ligadas ao grupo e recordam propostas para investir parte do dinheiro em outros negócios. “O que a gente ganhava nem multinacional ganha”, afirma Delecrode.
Igor, Anderson, Felipe Macedo Gomes e Américo Monte Jr são investigados por ligação com quatro entidades que teriam faturado mais de R$ 700 milhões em descontos sobre benefícios. A Polícia Federal apreendeu 29 veículos avaliados em R$ 28 milhões, enquanto as investigações também identificaram mansões, imóveis de alto padrão e mais de R$ 100 milhões enviados pelas associações a empresas relacionadas aos empresários. As conversas ocorreram cerca de um mês após a deflagração da Operação Sem Desconto, em abril de 2025. As informaçōes sāo do Estadāo.
Nas gravações, os participantes tratam as entidades de fachada como empreendimentos privados e comentam estratégias para se afastar formalmente das operações sem abrir mão dos ganhos obtidos anteriormente. Na conversa, Anderson e Delecrode tratam as associações como se fossem empresas, um negócio feito por eles.
Anderson fala em deixar sua parte para trás: “Então, você não ficaria por um período? Talvez, por um período, para guardar uma grana, mas eu ia sair logo. E eu ia sair assim: gente, eu agradeço por tudo, mas, a partir de hoje, eu não quero mais ter nenhum tipo de vínculo com a associação. Obrigado, podem continuar recebendo. A minha parte, podem dividir. Não quero mais”, diz
Anderson diz ainda ter sido questionado por Felipe Macedo Gomes, de 36 anos, outro sócio investigado pela Polícia Federal, se venderia a parte dele. Ele disse ter negado. “Porque isso que a gente tá vivendo agora não tem dinheiro que pague. Eu preferia estar no meu apartamento na Itaici (rua na Zona Norte de São Paulo), mas sabendo que ninguém ia entrar na minha casa, que ninguém ia levar meu carro”, disse.
As gravações da casa também mostram preocupações com o bloqueio de ativos financeiros. Um dos investigados reclama da impossibilidade de movimentar aplicações bancárias e afirma que pretendia transferir recursos para ativos digitais vinculados ao dólar, modalidade normalmente associada a criptomoedas. Em outro trecho, os envolvidos demonstram preocupação com a possível perda de imóveis adquiridos durante o período investigado.
Em meio à conversa, Anderson ainda menciona que Américo Monte Jr, outro integrante dos "Golden Boys" e também controlador das associações. Segundo ele, Américo queria “tokenizar” bens como obras de arte. A tokenização transforma ativos físicos em representações digitais. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mostraram diversas compras de joias e carros de luxo de Américo.
Anderson e Igor debocham de Américo e dizem ser impossível a manobra. "O quadro é tokenizado, mas alguém fica em posse do quadro. A polícia bateu na casa do cara, levaram o quadro. E o token?". Delecrode responde: "Como você tokeniza? Você tem de deixar na custódia de alguém. Não vão saber quem é o dono, porque é tokenizado, mas alguém vai ficar com ele. Não tem como tokenizar algo físico sem alguém estar guardando", disse.
Retorno do 'negócio'
Apesar do avanço das apurações, os empresários também demonstram confiança de que as atividades das associações possam ser retomadas futuramente. Um deles afirma que o negócio "vai voltar", embora admita não saber quando ou de que forma isso ocorreria.
As investigações apontam que parte significativa dos recursos recebidos pelas associações foi transferida para empresas ligadas aos próprios dirigentes e a familiares. A Polícia Federal também apreendeu 29 veículos dos "Golden Boys", avaliados em cerca de R$ 28 milhões, entre eles modelos de luxo de marcas como Ferrari, Porsche e BMW.
Associaçōes suspeitas
Apesar de longe da idade para se aposentar, Anderson e Igor já presidiram a Associação de Amparo ao Aposentado e Pensionista (AASAP), uma das entidades suspeitas do grupo. Com Américo Monte Jr e Felipe Macedo Gomes são suspeitos de serem os controladores da Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev e Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (ANDAPP).
Os "Golden Boys" já trabalhavam antes das entidades com a venda de crédito consignado para aposentados. Anderson Cordeiro atuou na área de telemarketing na venda de produtos financeiros. Américo Monte vem de uma família de "pastinhas", aqueles agentes que vendem crédito consignado a aposentados em um serviço terceirizado prestado a bancos. Ele chegou a ser investigado, inclusive, porque um de seus funcionários disse à polícia que sua filha ensinava funcionários de sua empresa a falsificarem assinaturas de idosos. O inquérito foi arquivado após o ex-funcionário afirmar que perdeu o celular que usou para filmar tudo.
Empresas e associações dos “Golden Boys” firmaram contratos de prestação de serviços com Eric Fidelis, filho do ex-diretor de Benefícios do INSS, André Fidelis — que foram presos na Operação Sem Desconto — e com a médica Thaissa Hoffmann, mulher do ex-procurador-geral do INSS, Virgílio Oliveira, que também foi preso e hoje está em prisa9o domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica. Ambos já eram suspeitos em razão de pagamentos milionários que receberam de Antonio Carlos Camilo Antunes, lobista conhecido como o “Careca do INSS”, e de outros operadores ligados a associações.
Quebras de sigilo bancário ainda identificaram transferências de R$ 8 mil de Felipe Macedo Gomes para José Carlos de Oliveira, ex-ministro da Previdência Social. Um dos suspeitos de financiar as entidades dos “Golden Boys”, o alfaiate João Carlos Camargo Jr transferiu outros R$ 12 mil. Oliveira está sob suspeita de receber valores maiores por meio de operadores e de uma padaria em São Paulo.
Tornozeleira
Os envolvidos desse grupo nunca foram presos e somente em abril de 2026 o ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF) ordenou, a pedido da Polícia Federal, que esses empresários passassem a usar tornozeleiras eletrônicas.
Os advogados que representam alguns dos investigados afirmaram desconhecer a existência, a autenticidade e a integridade dos vídeos. Em nota, sustentam que todos os bens dos empresários permanecem bloqueados por determinação judicial e que seus clientes continuam à disposição das autoridades.
A defesa também argumenta que, caso os vídeos existam, eles teriam sido obtidos de forma ilícita. Representantes de outros investigados citados no caso não se manifestaram ou não foram localizados pela reportagem.
Números da amostragem
da CGU é posta em xeque
Importante destacar que, inicialmente, a própria Controladoria-Geral da União (CGU), tenha divulgado que total desviado chegue a R$ 6,2 bilhōes, é importante destacar que esse valor é referente a receitas obtidas com desconto de mensalidades associativas de 2019 a 2024 e engloba todas as entidades que tinham Acordo de Cooperaçāo Técnica (ACT) com o INSS, e nāo só as suspeitas de fraude. A própria CGU já fez a correçāo da informaçāo em sua página oficial.
De acordo com a CGU, aproximadamente 98% dos aposentados entrevistados afirmaram não ter autorizado os descontos realizados por associações investigadas. Muitos também disseram desconhecer completamente a existência das entidades. O número de pessoas entrevistadas, segundo fontes do INSS, é irrisório diante do universo de pessoas que tinham desconto em folha na época da operaçāo. Na época, diz a fonte, existiam 7,7 milhōes de descontos associativos em aposentadorias e pensōes do INSS. Desse universo, a CGU teria ouvido apenas 1,27 mil pessoas, o que representa apenas 0,016% do total.
"Os números pōem em xeque a metodologia e o critério utilizado no estudo que balizou a operaçāo da Polícia Federal”, diz a fonte. Mesma avaliaçāo teve o advogado Marco Aurélio de Carvalho, um dos fundadores do grupo Prerrogativas: "A questão da amostragem é importante. Caso essas informações sejam confirmadas elas poderiam mudar, de fato, os rumos da operaçāo porque mostraria a tentativa deliberada de provocar prejuízo em quem quer que fosse proque dentro de um universo de associados (35,3 milhōes), se eventualmente apenas aquele número residual (1,27 mil) disse que nāo autorizou (os descontos de mensalidade associativa direto no contracheque).