Queda dos juros tem efeito limitado sobre crédito e consumo

Queda dos juros tem efeito limitado sobre crédito e consumo

A redução da taxa básica de juros representa um alívio para a economia brasileira, mas seus efeitos sobre o consumo e o crédito tendem a ser limitados no curto prazo, segundo especialistas. Isso porque om a Selic ainda em patamar elevado, o custo dos empréstimos permanece alto para famílias e empresas, reduzindo o impacto imediato de qualquer corte promovido pelo Banco Central. Na decisão mais recente, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano. 

Especialistas explicam que a distância entre a taxa básica e os juros efetivamente pagos pelos consumidores ajuda a explicar por que uma redução da Selic não significa, automaticamente, crédito barato. "Bancos incorporam aos empréstimos fatores como risco de inadimplência, custos operacionais, impostos e margem financeira. Por isso, a queda da taxa básica costuma chegar ao consumidor de maneira gradual e parcial", explica o economista Cristiano Lima.

De acordo com ele, o principal canal de transmissão dos juros para a economia é o crédito. Quando a Selic cai, o custo de captação das instituições financeiras tende a diminuir, abrindo espaço para uma redução das taxas cobradas em empréstimos e financiamentos. O processo, porém, não é imediato. Além disso, uma taxa básica ainda elevada mantém as condições financeiras restritivas. Na prática, famílias que dependem de crédito para comprar veículos, imóveis ou bens de maior valor continuam enfrentando parcelas elevadas.

O próprio Banco Central destaca que os efeitos da política monetária são defasados e cumulativos. Isso significa que uma decisão tomada hoje pode levar meses para produzir impacto mais amplo sobre a atividade econômica.


O consumo das famílias é um dos segmentos mais sensíveis aos juros. Quando o crédito fica caro, aumenta o custo de compras parceladas e financiamentos, o que pode levar consumidores a adiar decisões de compra.

Uma redução da Selic pode melhorar gradualmente esse cenário, mas o efeito tende a ser pequeno quando o ponto de partida ainda é uma taxa elevada. Para o consumidor, uma diferença de alguns pontos percentuais na Selic não se traduz necessariamente em uma redução equivalente nos juros do cartão de crédito, do cheque especial ou de um financiamento.

O mesmo ocorre com as empresas, pontua po economista. A redução da Selic pode diminuir o custo de financiamento e melhorar as condições para investimentos, capital de giro e expansão dos negócios. Entretanto, com juros ainda altos, muitos projetos continuam apresentando custo financeiro elevado.

A cautela é especialmente relevante em um ambiente no qual o Banco Central acompanha as expectativas de inflação e os riscos fiscais. Em seu cenário de 2026, a autoridade monetária apontou que as expectativas de inflação permaneciam acima da meta e que a atividade econômica apresentava sinais de desaceleração.

Isso limita o espaço para cortes mais rápidos dos juros. Quanto maior a preocupação com a inflação, maior tende a ser a necessidade de manter uma política monetária restritiva por mais tempo.

Efeito maior depende de novos cortes

Segundo o economista, para que os juros tenham impacto mais significativo sobre o consumo e a atividade, não basta uma redução isolada da Selic. É necessário que o movimento seja transmitido ao mercado de crédito e se consolide ao longo do tempo.

"A queda da taxa básica pode ser vista como o início de um processo, e não como uma mudança imediata nas condições enfrentadas pelos consumidores", diz.

Enquanto a Selic permanecer em níveis elevados, o estímulo ao consumo tende a ser limitado, acrescenta e adverte: "Famílias continuarão encontrando crédito caro, empresas terão maior custo para investir e parte dos consumidores poderá preferir reduzir dívidas ou aumentar a poupança em vez de ampliar os gastos".

"O impacto mais expressivo sobre a economia dependerá, assim, da combinação entre juros menores, inflação controlada, melhora das condições de crédito e recuperação da confiança de consumidores e empresas", finaliza.

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