Regiōes Norte e Centro-Oeste cresceram mais que o PIB brasileiro

Regiōes Norte e Centro-Oeste cresceram mais que o PIB brasileiro

Guardando o poderio da Floresta Amazônica e fazendo fronteira com sete países da América Latina, a Região Norte alavancou seu Produto Interno Bruto (PIB) em 3,2% ao ano (a.a.) nas últimas duas décadas, conforme análise do Sistema de Contas Regionais do IBGE (SCR). Atrás apenas do Centro-Oeste (3,23%) na taxa média do PIB, as duas regiões apresentaram um crescimento acima do Nordeste (2,34%), Sudeste (1,91%) e do Sul, que apresentou a pior média nacional (1,88%) na evolução da atividade econômica no Brasil.

Em diálogo com o cenário macroeconômico, a produção de ‘bens e serviços’ deixou de se concentrar exclusivamente nos polos tradicionais de desenvolvimento. Além disso, a expansão de atividades como a pecuária, a indústria e a economia criativa tem contribuído para o processo gradual de convergência entre as regiões, do Sul ao Norte brasileiro.

Ganhando destaque ao longo dos últimos 20 anos, o Norte do país, considerado como importante ‘corredor logístico’ e produtor de ativos culturais, superou a média nacional (2,2%) segundo o estudo Economia da Região Norte, iniciativa do ‘Núcleo de Contas Nacionais do FGV IBRE’ (NCN). Estima-se que até o primeiro semestre de 2025, a região tenha mantido o padrão de crescimento do PIB superior ao brasileiro – com expectativas positivas para este ano.

Reinventando sua economia para além da fronteira, o Norte ganhou força ao sediar eventos internacionais (COP30) e fortalecer iniciativas culturais. Para Isabel Seixas, idealizadora do “Rolé Brasil” e especialista em territórios criativos, a ‘Cultura’ é uma das chaves valiosas e de valor inegociável para a base e desenvolvimento do PIB nortista, atrelada a setores como sustentabilidade, turismo, empreendedorismo e territórios criativos.

“Não há como falar em uma alta do PIB sem reconhecer a centralidade da cultura e do patrimônio na dinâmica amazônica. Estamos falando da ‘maior faixa territorial’ do país. Os percursos urbanos, que hoje são retratados pela cena audiovisual, auxiliam a observar o espaço e as memórias de um povo. Investir em ‘educação patrimonial’ é, portanto, dar a garantia que o avanço macroeconômico possa ser acompanhado do fortalecimento social nas comunidades produtoras, sejam elas em Rio Branco ou Marabá, assim como em Belém, Manaus, Macapá, Palmas e afins”, avalia Isabel.

Um exemplo está nos trabalhos desenvolvidos nas cidades de Marabá, ao sul do Pará, e na capital Belém. As duas experiências integram as ações do Perifa.Doc, iniciativa da parceria entre o Rolé Brasil e a FavelAcademy e com patrocínio da Vale, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, que utiliza a educação patrimonial e o audiovisual como ferramentas para fortalecer narrativas produzidas pelos próprios territórios amazônicos. Segundo Isabel, a partir de passeios guiados e a observação das cidades, é possível reconhecer ativos de valor imensurável que circulam pelo Norte do país, através de patrimônios, histórias e personagens reais.


Assinado pela Rolé Brasil, que movimenta a educação patrimonial e a redescoberta de territórios no país há quatorze anos, a idealizadora Isabel Seixas vê a crescente do Norte brasileiro como uma vitrine para a valorização dos espaços, conectando arquitetura, memória e transformações sociais sob o olhar decolonial. “O Perifa.Doc surge das narrativas das periferias, que colocam o setor de ‘serviços’ e da economia criativa para integrar o Produto Interno Bruto (PIB) dentro dos estados. No entanto, a história agora é contada por quem faz a economia girar, de dentro para fora”, diz.

Agora, em Belém, o programa amplia esse movimento ao propor uma nova leitura sobre a capital paraense, após 410 anos. A cidade recebe o “Rolé por Belém”, uma caminhada cultural gratuita que atravessa espaços emblemáticos do Centro Histórico.

Ao aprofundar nas histórias regionais, Isabel explica que os territórios passam a ser centros de produção de conhecimento, criatividade e inovação, posicionando o norte como território fértil para investimentos futuros. Não é à toa que dos sete estados analisados pela ‘FGV IBRE’, o Amazonas e o Pará, em conjunto, representam cerca de 65% de seu PIB. Voltando o olhar para o todo, a especialista afirma que esses territórios alcançaram projeção através da cultura e do imaginário popular, transformando comunidades em pilares de desenvolvimento e pertencimento local.

“Os percursos urbanos revelam que o Norte do país não pode ser entendido apenas por indicadores econômicos. Quando caminhamos pelas cidades, percebemos que centros históricos, bairros e rios carregam marcas da formação brasileira – e assim a identidade dos produtores culturais. Dessa forma, a educação patrimonial permite conectar essas camadas de memória ao presente, mostrando que desenvolvimento passa pela capacidade de reconhecer e valorizar as histórias que moldaram esses lugares. Auxiliando a construir ainda mais a imagem do Norte, através da formação urbana e dos centros históricos estruturados a partir da colonização, da presença religiosa, do comércio e dos processos de modernização econômica; esse é o momento do Norte reafirmar suas narrativas e sair ainda mais fortificado no mapa das regiões de 2026”, conclui.

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