25 de Outubro de 2026
Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador concentraram neste domingo (25) parte das denúncias de dificuldades de acesso ao transporte público durante o segundo turno das eleições de 2026. Eleitores relataram longas esperas, lotação e redução na oferta de ônibus, apesar de decisões da Justiça Eleitoral para garantir a operação das frotas. Casos semelhantes também foram registrados em outras cidades brasileiras.
A gratuidade no transporte coletivo durante as eleições está prevista na Resolução nº 23.751/2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determina a oferta de transporte urbano, intermunicipal e metropolitano com frequência compatível à dos dias úteis. A norma, baseada em decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), busca assegurar o deslocamento dos eleitores e garantir o exercício do direito ao voto.
A campanha dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL) pediram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a ampliaçāo do horário eleitoral, que acaba às 17h, para 19h. O ministro Kassio Nunes Marques nāo se manifestou até a publicaçāo da reportagem. O PT também ingressou no Supremo Tribunal Federal (STF) para ampliar o horário, o ministro Cristiano Zanin está com o caso.
Em São Paulo, a Justiça Eleitoral determinou que a prefeitura mantivesse 100% da frota municipal de ônibus em circulação ao longo do dia de votação. Na capital paulista, no entanto, passageiros relataram demora de até 30 minutos entre veículos e lotação em linhas que atendem regiões como o Terminal Cachoeirinha, na Zona Norte.
No Estado do Rio de Janeiro, moradores de São Gonçalo denunciaram a escassez de ônibus em linhas com destino à Região dos Lagos. Alguns passageiros afirmaram ter aguardado até quatro horas por transporte antes de recorrerem a aplicativos. O vereador Isaac Ricalde (PCdoB) também denunciou os longos intervalos entre os coletivos. Relatos semelhantes foram registrados em Nova Iguaçu e São João de Meriti, na Região Metropolitana.
Na Bahia, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-BA) determinou o restabelecimento imediato da frota integral do transporte público em Salvador após registros de redução na oferta do serviço. Foram relatadas retençōes de ônibus em Lauro de Freitas e Feira de Santana.
Denúncias de eleitores sobre o bloqueio da saída de veículos pela prefeitura levou o Procon-BA a fazer uma fiscalizaçāo. O órgāo encontrou 544 ônibus aptos a operar, mas parados em três garagens em Salvador (BA). A empresa foi autuada. O prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil) teve um mandado de prisāo expedido, mas ele se encontra em Paris.
Alerta pelas redes
Em diversas regiões do país, eleitores utilizaram as redes sociais para denunciar problemas como demora excessiva nos ônibus, veículos que não realizavam embarque e desembarque, redução de frota e cobrança irregular de passagens.
Em Recife, vídeos compartilhados nas redes mostram uma passageira tentando embarcar em um ônibus sem conseguir a liberação da catraca. Em uma das gravações, ela solicita diversas vezes o acesso ao coletivo, enquanto o veículo segue em movimento. As imagens não permitem identificar o desfecho da situação.
No Piauí, o deputado estadual Fábio Novo (PT) afirmou que Teresina operava com apenas um ônibus por linha e que parte da frota começou a circular somente a partir das 8h30, após o início da votação. Segundo ele, cerca de 100 veículos estavam em circulação, número inferior ao necessário para atender à demanda da capital.
"Apenas um ônibus por linha e a frota começou a circular às 8h30! As urnas abriram às 8h! No máximo, 100 ônibus estão circulando hoje em Teresina. A resolução 23.751/2026 do TSE, em seu artigo 23, garante que o transporte no dia da eleição deve ser tratado como dia útil; portanto, deveria haver 230 ônibus circulando. É um flagrante crime eleitoral, e nosso jurídico já foi acionado! Em um dia importante para a democracia, o poder público deve zelar pelo direito de ir e vir e garantir as condições para o exercício do voto", escreveu no X.
Em São Luís, passageiros também relataram longas esperas. Em comentários nas redes sociais da prefeitura, usuários afirmaram que parte dos ônibus estava sendo retirada de circulação e recolhida às garagens, apesar do anúncio de gratuidade no transporte.
Já em Porto Alegre, eleitores relataram dificuldades para utilizar o sistema de ônibus neste domingo, supostamente em razão de alterações nos pontos de parada.
Na região Nordeste, novas queixas surgiram em estados como Alagoas. Em Maceió, passageiros denunciaram que ônibus deixavam de parar para embarque e desembarque, enquanto vans cobravam tarifa dos usuários.
O DJ Alok, conhecido por seu ativismo ambiental, e a cantora Anitta, chamaram atenção para dificuldades no transporte de comunidades indígenas. Alok ofereceu ajuda financeira, mas esbarrou na legislação eleitoral.
Além de ativista ambiental, Alok integra a lista da Time dos 100 líderes climáticos mais influentes do mundo, ele também trabalha e mantém contato com aldeias indígenas há anos e, em 2024, lançou o projeto "O Futuro É Ancestral", álbum criado em parceria com oito etnias indígenas brasileiras e indicado ao Grammy Latino.
Na sexta-feira (23), Alok revelou que se ofereceu para custear o deslocamento de indígenas até os locais de votação, após receber relatos de dificuldades logísticas e falta de recursos.
"Fui informado de que muitas aldeias indígenas estão enfrentando dificuldades logísticas e falta de recursos para que seus povos possam votar no domingo", escreveu. "Logo me prontifiquei a pagar pelo transporte, porém a legislação eleitoral proíbe esse tipo de apoio privado neste período", escreveu Alok.
Na declaração publicada nas redes, Alok cobra para que prefeituras e órgãos da Justiça Eleitoral garantam que todos tenham condições de chegar às urnas. "Os povos indígenas ajudaram a construir a história deste país e não podem ser excluídos das decisões que vão definir o seu futuro", afirmou.
Por fim, ele deixa um recado aos eleitores e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE): "A democracia não começa na contagem dos votos, começa garantindo que todos possam chegar às urnas. Contamos com o Tribunal Superior Eleitoral neste momento".
Anitta também deu visibilidade ao problema. Em publicação associada ao seu perfil oficial no Facebook, a cantora questionou como cidadãos podem exercer o direito ao voto quando não conseguem chegar às urnas, destacando a realidade enfrentada pelos povos indígenas.
No seu perfil no Instagram Anitta deixou seu recado: "Imagina ter o direito de votar, mas não conseguir chegar até a urna? Em pleno 2026, essa ainda é a realidade de muitos indígenas no Brasil. Vocês sabem que a defesa dos povos indígenas e da floresta em pé é uma das causas pelas quais eu luto. Após muita mobilização, a Justiça Federal determinou que a União garanta transporte, alimentação e apoio linguístico para os indígenas votarem no segundo turno. Mas essa decisão precisa sair do papel e chegar aos territórios! Neste domingo, 25 de outubro, os problemas do primeiro turno não podem se repetir. Votar é um direito. Garantir o acesso é dever do Estado. Sem os povos indígenas votando, não há democracia!"
Justiça determina medidas para
deslocamento dessas comunidades
Importante destacar que, na sexta-feira (23), o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, negou autorização geral para o transporte de indígenas por órgãos federais, exigindo aprovação individual de cada operação. No entanto, após muita mobilização, a Justiça Federal determinou que a União garanta transporte, alimentação e apoio linguístico para os indígenas votarem no segundo turno.
Segundo dados do Ministério dos Povos Indígenas, cerca de 7.200 eleitores indígenas dependem de transporte para votar, sendo 4.770 por via fluvial. A Justiça Federal determinou medidas para garantir o deslocamento dessas comunidades. No Vale do Javari, no Amazonas, o TSE informou que a situação foi regularizada.