‘Tropa do Flávio’: canal do PL já enviou imagens falsas e falas editadas de Lula

‘Tropa do Flávio’: canal do PL já enviou imagens falsas e falas editadas de Lula

19 de Outubro de 2026

“Tropa do Flávio”, o canal de WhatsApp vinculado à campanha oficial de Flávio Bolsonaro (PL) compartilhou imagens falsas e falas descontextualizadas de Lula para serem replicadas nas redes sociais. A comunidade serve como repositório de conteúdos e orientações para a campanha do candidato bolsonarista nas redes sociais e conta com a atuação direta do deputado e senador eleito Gustavo Gayer (PL-GO) e do deputado reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG). 

A Lupa analisou 247 mensagens enviadas entre os dias 6 e 13 de outubro, até as 13h, e identificou ao menos oito conteúdos enganosos. Algumas já desmentidas por organizações de checagens.

O canal, que nesta segunda (13) contava com cerca de 1,5 milhão de seguidores, foi criado em resposta ao “Exército de Lula”, administrado pelo deputado André Janones (REDE-MG), e derrubado por decisão judicial por suposto compartilhamento de informações falsas – não localizadas nem em análise técnica do Tribunal Superior Eleitoral nem em investigação da Lupa. 

“Pessoal, como vocês sabem, o PT e o Lula criaram uma organização criminosa, uma verdadeira milícia digital para espalhar fake news e mentiras sobre o Flávio Bolsonaro. (…) É aqui que nós vamos fazer o nosso contraponto, só falando a verdade, só divulgando fatos e replicando as falas do Lula”, afirmou Gayer em vídeo publicado no dia 7 de outubro.

Minutos antes, a promessa já havia sido descumprida, quando o canal compartilhou vídeo que usava trechos descontextualizados de falas de Lula para insinuar que o mandatário pretende destruir os valores morais e da família. O conteúdo – também publicado nos perfis oficiais do Partido Liberal (PL) nas redes sociais – recupera um trecho de uma declaração do presidente em 28 de setembro, durante um comício em Belém, no Pará, afirmando que “as mulheres aprendem a tomar ‘toque’ desde quando era pequena”. 

Na gravação, a fala é sobreposta a uma ilustração gerada por inteligência artificial que mostra uma menina negra assustada, insinuando abuso infantil. Na verdade, pouco antes da frase, Lula falava sobre saúde e citou a diferença nos cuidados entre homens e mulheres, que desde cedo passam por exames ginecológicos, e defendeu a importância do exame de toque retal para o diagnóstico do câncer de próstata. Publicações com a falsa associação já foram alvo de decisão do TSE, que ordenou inclusive que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) apagasse uma publicação sobre o tema, mas no canal o vídeo segue no ar.

Imagem feita com IA para associar fala de Lula ao abuso infantil. (Reprodução)

No dia seguinte, o canal distribuiu outro vídeo com recortes de falas de Lula sobre religião tirados de contexto e já desmentidas por agências de checagem, como trecho em que o presidente diz não acreditar em Deus. O trecho foi recortado de um discurso feito no Rio de Janeiro. O vídeo enviado no canal omite a parte do discurso em que Lula disse que acredita em Deus e explica: “porque Deus faz acontecer na nossa vida aquilo que não estava previsto acontecer, aquilo que a gente acha impossível”. 

Tropa do Flávio incentivou o compartilhamento de vídeos que tiram de contexto falas de Lula (Reprodução)

Além das falas descontextualizadas de Lula, o canal compartilhou conteúdos que tentam associar o presidente a supostos esquemas de corrupção sem apresentar provas das alegações. No dia 9, a Tropa do Flávio mobilizou seus seguidores a compartilhar reportagem da revista Veja, com áudio de Daniel Vorcaro, do banco Master, afirmando que liberou dinheiro para um documentário sobre o presidente Lula em troca de negócios no governo. O conteúdo apareceu quatro vezes durante o dia, com alegações de que o petista teria recebido os valores.

No entanto, não há até o momento evidências de pagamento, como comprovantes de repasses, que confirmem o áudio. Também não há qualquer prova até o momento de que Lula e Vorcaro tenham se encontrado para discutir o assunto. A Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal negaram que o áudio tenha sido extraído de um depoimento (como consta na reportagem). O atual advogado de Vorcaro, que assumiu o caso em agosto, disse desconhecer o fato. Também não há nenhuma menção ao episódio nas conversas que estão nos celulares apreendidos de Vorcaro pela polícia. 

Tropa do Flávio compartilhou acusações sem provas contra Lula (reprodução)

No dia seguinte, o canal divulgou áudio atribuído a Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), em que ele afirma que Lula é melhor para a facção criminosa. A alegação circula desde 2022, mas sem provas do suposto apoio. Tentativas de associar o petista ao líder do crime organizado são desmentidas há anos (aqui, aqui e aqui).

No dia 12 de outubro, o canal também compartilhou imagens falsas sobre as manifestações a favor da reeleição de Lula (PT) que ocorreram durante o final de semana. Uma delas mostrava uma trabalhadora negra limpando pichações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em uma estação de metrô na Avenida Paulista. O conteúdo foi desmentido pela Lupa, que constatou tratar-se de uma imagem gerada por inteligência artificial.

Outra imagem buscava associar o ato a favor de Lula ao uso de drogas. O canal divulgou um vídeo que mostrava uma suposta manifestante fazendo uso de substâncias ilícitas durante a manifestação. A cena, no entanto, já circulava nas redes em ao menos três países antes do ato realizado no domingo (11), conforme desmentido pela Lupa. O conteúdo foi apagado do canal após questionamentos da imprensa.

Imagem falsa criada com IA sobre ato pró-Lula foi compartilhada no canal do PL (Reprodução)

Violação de regras eleitorais

O compartilhamento de conteúdos enganosos e mídias sintéticas sem a devida rotulagem viola as regras da Justiça Eleitoral para propaganda na internet, das quais os aplicativos de mensageria também estão sujeitos. 

“Não há nenhuma proibição sobre a presença de canais com missões ou orientações para republicação de conteúdos, o que não pode é haver o uso disso para disseminação de desinformação ou de qualquer outro tipo de conteúdo proibido, como deepfakes ou mídias produzidas com inteligência artificial fora do período permitido ou sem rotulagem”, explica o advogado eleitoral Fernando Neisser.

Além da desinformação, análise da Lupa também identificou nas mensagens enviadas no “Tropa do Flávio” a presença de uma “lógica de confronto”. Os inscritos no canal são convidados a subir hashtags contra o presidente Lula e a comentar em publicações de adversários políticos. “Em TODOS os vídeos que a esquerda postar fingindo ser um lírio do campo pra ganhar o seu voto, comente: Antes desse vídeo iria votar 22… mas vendo esse vídeo eu vou de 22″, orienta uma das mensagens.

Um áudio da deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC), publicado no canal na última segunda-feira, por exemplo, convida os seguidores a se mobilizarem. “A gente precisa se mobilizar como se fosse nossa única chance, como se fosse nosso último dia de vida — e é nossa última chance de resgatar o Brasil”, afirma a parlamentar.

A estratégia foi apontada como risco pela equipe técnica do Tribunal Superior Eleitoral ao analisar o canal “Exército do Lula”. “Registra-se, ainda, nas mensagens examinadas, o emprego recorrente de uma linguagem polarizadora, que tende a estabelecer uma lógica de confronto potencialmente contrária à condição das eleições como um substitutivo do conflito”, afirmaram. Os conteúdos do canal “Tropa do Flávio” não foram submetidos à análise do TSE.

Em setembro, reportagens da Lupa já haviam identificado o compartilhamento de desinformação e de conteúdos gerados por inteligência artificial, alguns sem aviso de uso de IA, no site oficial da campanha de Flávio Bolsonaro (PL).

Fonte: Agência Lupa

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